quarta-feira, 26 de maio de 2010

8



Primeiro é a luz a inundar-me os olhos. O corpo que acorda náufrago, o dia que chega antes de tempo. Encho-me então de promessas, como um antídoto.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

8


Ter sede.


Sede da manhã, do cheiro a café, do sabor das laranjas. Dos teus olhos que falam nas minhas palavras, da tua pele que desperta debaixo dos meus dedos. Da noite de verão que traz mastros iluminados, vinho, quatro luas sobre o mar.


É o que mais desejo, ter sede.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

7




BOLERO

Que vaidade imaginar
que posso dar-te tudo, amor e fortuna,
itinerários, música, brinquedos.
É verdade que é assim:
dou-te tudo que é meu, é verdade,
mas todo o meu não te basta,
como a mim não me basta que me dês
tudo que é teu.

Por isso nunca seremos
o casal perfeito, o bilhete postal,
se não formos capazes de aceitar
que só na aritmética
o dois nasce de um mais um.

Um papelito por aí
diz simplesmente:

Foste sempre o meu espelho,
quer dizer, para me ver tinha que olhar-te.

E este fragmento:

A lenta máquina do desamor
a engrenagem do refluxo
os corpos que deixam as almofadas
os lençóis os beijos

e de pé frente ao espelho interrogando-se
cada um a si mesmo
já não olhando-se entre si
já não nus para o outro
já não te amo,
meu amor.


Júlio Cortázar

sexta-feira, 7 de maio de 2010

6


Vento, vento. De noite a sala enche-se de vento, onda após onda.
É nessa altura que amarro o coração ao peito, como uma falésia

sábado, 1 de maio de 2010

5




A minha pele tem uma insónia longa.
Adormeço perdido do corpo, que demoro a encontrar, de manhã.

4


Preciso de algo em que acreditar.
Nem que seja no teu corpo, como um veneno.

3


Isto não é a minha vida.
É apenas o fogo que sai dos meus dedos

terça-feira, 27 de abril de 2010

2





Os que vivem devagar não olham para trás,
nem sabem o que vem à sua frente. Sentam-se
na vida que apanham quando o tempo passa
por eles, e tiram-na dos ramos pesados
como s fosse o fruto que vão abrir
com o cansaço dos seus dedos.


Os que vivem devagar desenham
os seus passos no chão para onde não olham,
quando atravessam o instante, e sabem que
o sem movimento é como o das árvores
que o vento agita e nunca saem
do lugar onde têm a sua raiz.


Os que vivem devagar têm a pressa
da folha que cai, no outono, e flutua
com o último brilho de um viço
estival, antes de pousar onde a terra
preparou o seu leito, e aí adormecer
na doce corrupção da eternidade.


Nuno Júdice

domingo, 11 de abril de 2010

1


Mas nem sempre consigo compreender. Alguma coisa fica sempre na sombra do indizível, do inaceitável. E nem no despudor da solidão me é revelado. Talvez que a dor seja demasiadamente ofuscante, um deserto sem sombra.
E a vida subita e selvagem irrompe à minha frente, inesperada. Pode ser ilusão, mas todos precisamos de promessas.