terça-feira, 27 de abril de 2010

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Os que vivem devagar não olham para trás,
nem sabem o que vem à sua frente. Sentam-se
na vida que apanham quando o tempo passa
por eles, e tiram-na dos ramos pesados
como s fosse o fruto que vão abrir
com o cansaço dos seus dedos.


Os que vivem devagar desenham
os seus passos no chão para onde não olham,
quando atravessam o instante, e sabem que
o sem movimento é como o das árvores
que o vento agita e nunca saem
do lugar onde têm a sua raiz.


Os que vivem devagar têm a pressa
da folha que cai, no outono, e flutua
com o último brilho de um viço
estival, antes de pousar onde a terra
preparou o seu leito, e aí adormecer
na doce corrupção da eternidade.


Nuno Júdice

domingo, 11 de abril de 2010

1


Mas nem sempre consigo compreender. Alguma coisa fica sempre na sombra do indizível, do inaceitável. E nem no despudor da solidão me é revelado. Talvez que a dor seja demasiadamente ofuscante, um deserto sem sombra.
E a vida subita e selvagem irrompe à minha frente, inesperada. Pode ser ilusão, mas todos precisamos de promessas.